domingo, 2 de abril de 2017

24. A EDUCAÇÃO DO RESPEITO E DA POLIDEZ

Nota do blogue: Acompanhe esse especial AQUI.



24. A EDUCAÇÃO DO RESPEITO E DA POLIDEZ 

A polidez que se trata de inculcar nas crianças é uma polidez que vem do coração: virtude francesa e cristã por excelência, é filha do respeito aos outros e irmã da caridade. Mas, por uma justa consequência das coisas, a educação da polidez desenvolverá o senso do respeito e sugerirá uma porção de pequenos atos de caridade numa época em que o egoísmo impele muita gente a se comportar na vida como se estivesse só ou fosse o centro do mundo. 

• Decerto, não se trata de pensar que a educação consiste unicamente no bom comportamento exterior. Mas esse comportamento pode favorecer o bom comportamento moral. 

• É tanto mais importante ensinar desde cedo à criança as regras elementares da polidez quanto daí se extraem hábitos, poder-se-ia mesmo dizer automatismos relativamente fáceis de adquirir, e que permanecerão a vida inteira. Se a educação da polidez for negligenciada durante a primeira infância, prova a experiência ser difícil refazê-la depois. 

• A má educação compromete o futuro humano e profissional de uma criança, enquanto que a boa educação o favorece poderosamente. 

• A má educação inicial faz, em muitos casos, correr o risco de paralisar ou diminuir a influência da criança ao se tornar adulta, enquanto que uma boa educação a facilita e multiplica. 

• A polidez é uma virtude educativa na medida em que sem esforço considerável obriga a um certo controle de si mesmo. É uma virtude social no sentido de que facilita as relações entre os homens. Quer no meio familiar, quer no profissional, nada mais penoso do que viver ao lado de alguém que pudéssemos classificar de “sem-cerimônia”. Quantos lares se perturbaram porque um dos esposos não possuía bastante “forma”! Não será verdade que frequentemente o que mais divide os homens são questões de proceder, em vez de questões de substância? 

• A polidez é por vezes chamada “a arte de saber viver” porque sabe adoçar a vida dos outros. É também chamada tato porque é como se fosse uma espécie de sentido da alma que permite sentir o que convém pensar, fazer ou dizer, em quaisquer circunstâncias, para não aborrecer ou causar sofrimento aos outros. 

• Vale a pena empreender a educação da polidez. Não é tempo perdido nem cuidado inútil. As regras da boa educação — que é preciso não confundir com hipocrisia mundana — nem com preciosismo amaneirado — fazem parte da bagagem de todos os homens dignos desse nome, que se respeitam e respeitam os outros. 

• A polidez não é um privilégio de casta ou de classe. Em todos os meios se encontram almas de elite com tato e delicadeza. É preciso, outrossim, não confundir a polidez com um código complicado de regras convencionais. Basta conhecer-lhe as grandes linhas e sobretudo não deturpar o espírito que as tenha ditado. 

ROLLIN dizia: “Não acho que se deva exercitar muito as crianças em todos os refinamentos da civilidade, nem ensinar-lhes por método todas as cerimônias complexas que reinam no mundo. O importante é combater nos jovens certas disposições diretamente opostas aos deveres comuns da sociedade: uma grosseria feroz e rústica que impede a reflexão do que pode agradar ou desagradar a outrem, um amor de si mesmo que só atende às suas próprias comodidades e vantagens, uma vaidade e uma altivez que nos persuadem de que tudo nos é devido e nada devemos aos outros, um espírito de crítica, de sarcasmo, de contradição que tudo condena e só procura ferir. Eis os defeitos aos quais é preciso fazer guerra aberta”.[1]
• As “boas maneiras” devem ser apenas as maneiras mais seguras de ser bom. 

Os detalhes do que se costuma chamar “a boa educação” são apenas um dos elementos de uma educação verdadeiramente boa. Um homem mal educado corre o risco de não somente incomodar os outros, mas de sofrer as consequências de seu modo de ser, e de pagar, às vezes muito caro, sua negligência no tocante a convenções cujo alcance lhe terá escapado. Não convém aumentar nem subestimar a importância dessa “civilidade pueril e honesta”, variável segundo os países e segundo as épocas, que — apesar do seu caráter formal e relativo — traduz com persistência no indivíduo um forte desejo de se tornar suportável e, se possível, amável ao seu próximo. 

• Das obrigações da civilidade ao dever da moral social, a diferença o mais das vezes é apenas de grau, tanto é verdade — como afirmou Léon Harmel — que a questão social é antes de tudo uma questão de deferência, ao invés de uma questão de dinheiro. 

• É preciso reconhecer que o principal obstáculo à polidez é o desdém pelos outros, ou mais ainda o medo de ter de se incomodar. As crianças de hoje ouviram muitas vezes repetir-se o “slogan” falaz: “Onde há incômodo não há prazer.” Ora, segundo a observação de Pascal, a polidez é antes de tudo “saber incomodar-se”. Mas, não tenhamos medo de dizer, o incômodo que assumimos é amplamente compensado, ao menos pelo fato — como dizia um humorista — de permitir que a liberdade individual não torne insuportável aos homens a vida em comum. 

Será a polidez uma virtude? pergunta a si mesmo Paul Archambault. E eis a resposta: 
“Sim, ou mais exatamente uma encruzilhada ou uma síntese de virtudes. Virtudes de dignidade pessoal, caso se trate de abster-se de palavras e gestos que se familiarizam pouco a pouco com sentimentos vis e coisas baixas. Virtude de deferência, caso se trate de assinalar num professor, num velho ou num benfeitor o que tem de grandeza humana. Virtude de caridade, caso se trate de evitar tudo quanto for suscetível de causar ao próximo um aborrecimento ou uma mágoa inútil. Virtude de humildade, caso se trate de colocar-se e ficar em seu lugar, de não impor sua presença, suas opiniões ou preferências”.[2]
• Se a vida moderna tende muitas vezes a atrofiar essa delicadeza do coração que se exprime pela polidez e o respeito aos outros, mais uma razão para que os pais exerçam vigilância sobre ela, transmitindo-a aos hábitos e aos reflexos dos filhos. Ainda aí, o exemplo tem influência capital. Nisso como no resto, a criança se modela antes de tudo pelos pais. Como querer impedir que uma criança pronuncie palavras grosseiras ou trate com irreverência os professores, se são os pais que dão o exemplo? 

• Será preciso ir mais longe e lembrar que a autoridade não nos dá de modo algum o direito de tratar as crianças sem deferência? É uma questão de tato e de medida; contudo, a intimidade mais confiante pede a polidez mais delicada. Mesmo nos momentos de impaciência, por vezes tão compreensíveis, jamais utilizemos essas apóstrofes e esses qualificativos que vão além do nosso pensamento, mas que assinalam falta de domínio de nós mesmos e de respeito à dignidade dos nossos filhos. 

• Como poderiam os pais obter o respeito dos filhos quando nos seus primeiros anos os tratam como um brinquedo, depois como um empregadinho, sem nunca ter em conta a sua personalidade e sem que pareçam levá-lo a sério? Como não compreendem que, respondendo com evasivas e com “deixe-me em paz” às perguntas do filho, destroem com as próprias mãos a confiança e a admiração que constituem os elementos fundamentais da noção do respeito? Como o filho poderá respeitar os pais quando percebe que são os primeiros a violar as regras que pretendem impor-lhes? 

• Fazer a educação do respeito é provocar a admiração da criança pelas pessoas e coisas que o mereçam. A criança que sabe admirar é comumente uma criança respeitosa; a que de tudo zomba nunca saberá respeitar coisa alguma, 

“Gostaria de dizer uma palavra sobre a polidez que devemos às crianças. Em cada uma delas se encontra um desejo nato de respeito. Por que certos adultos o levam tão pouco a sério? É maravilhoso que a criança seja tão cedo movida pelo instinto de grandeza que possui. Sente-se logo alguém, ou aspira a sê-lo; deseja para si a consideração que lhe é exigida em relação aos adultos. Francisco (3 anos) disse ao pai, que lhe atirou bruscamente, através da mesa, um pedaço de pão: 

“Não, papai (o lhe devolve o pão), não me dê assim... dê com delicadeza.” O pai, que é inteligente, aprova o protesto do filhinho. Sabe que só se pode exigir dos meninos o respeito e a polidez de maneiras, respeitando-se e fazendo com quo a justo título sintam-se iguais aos pais em dignidade.[3]

Mas, ah! bem depressa a criança perderá o senso dessa igualdade. Habituada a ser tratada com essa sem-cerimônia brutal quo muitos adultos confundem com familiaridade, a ser interpelada com maus modos, recebendo ordens imperiosas, aceitará na aparência esse tratamento de inferior, mas vingar-se-á noutros das humilhações que lhe dermos; mostrar-se-á também imperiosa para com os irmãozinhos.[4]

Como a polidez, a obediência deve ser automática para a boa ordem da família. A criança deve compreender que a ordem, a limpeza, as boas maneiras tornam a vida bela e agradável. Se os pais se esforçam por bem formar os automatismos da polidez, estes passarão a funcionar por si mesmos, sem a menor dificuldade. “Bom dia... Obrigado... Desculpe... Faz favor...” são comportamentos que a criança deve adquirir de improviso pela imitação. É raro que pais polidos tenham filhos impolidos, sobretudo se acentuam com oportunidade por que são polidos, logo que a razão do filho desperta.[5]


[1] Citado por PRADEL, em l’Éducation de la Politesse, pág. 101 (Ed. Téqui). 
[2] Citado por PRADEL, idem, pág. 120 
[3] MARGUERITE GEMAEHLING, “Les rapports de l'enfant avec sa famille”, na revista Éducation (1943). 
[4] Idem. 
[5] VÉRINE, “Éducation de l’effort et Méthode active”, na revista Éducation (abril 1943). 
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