domingo, 26 de fevereiro de 2017

22. EDUCAÇÃO DA LEALDADE - FINAL

Nota do blogue: Acompanhe esse especial AQUI.



22. EDUCAÇÃO DA LEALDADE

Uma caridade mal compreendida poderá levar a criança a desculpar um camarada por meio de uma mentira; ela pensará que essa falta de lealdade que não lhe aproveita não é uma falta.

 • Por fim, a maldade leva à calúnia.

A criança de tenra idade é sempre tentada, num momento ou noutro, a negar alguma travessura, e se essa primeira mentira tem êxito, terá naturalmente a tendência de repeti-la; donde a necessidade do uma grande lucidez relativamente às crianças para não deixá-las seguir um caminho que pode ser tentador. O que é difícil é ser clarividente sem ser desconfiado; nem todos o conseguem.

Há crianças com uma resistência extraordinária aos interrogatórios dos adultos, persistindo tenazmente na mentira. O fato se deve com freqüência a que a repressão, no caso de descoberta da mentira, é demasiado forte. A criança é levada a vender a pele muito caro. Se sabe que mesmo em caso de mentira poderá contar com uma certa indulgência, deixar-se-á levar quase sempre com facilidade a voltar atrás do que disse, o que, sem dúvida, é preferível.

A mentira-desculpa assume, por vezes, caráter ainda mais repreensível quando o seu fim é duplo, isto é, quando ao lado da desculpa para quem a inventa, faz carga noutra criança ou noutra pessoa da falta imputável; é a mentira-desculpa-acusadora, mas requintada e mais repreensível. Deve ser rigorosamente investigada e seriamente corrigida. Os ciúmes infantis com relação a irmãos, certos desejos de vingança contra empregados, “bedéis” ou camaradas de aula, entram em cena para lhe dar essa orientação nova. Quando se inventa uma mentira desse tipo, o essencial é compreender a fundo a razão pela qual a criança procurou fazer mal a essa ou àquela pessoa; isto pode constituir preciosa indicação da tendência de caráter atualmente predominante.

A mentira-imaginação tem muitas vezes na criança — como no adulto, aliás — o caráter de uma compensação. A criança inventa Toda a espécie de coisas, de ordem material ou afetiva, que compensem o que pode faltar-lhe, ou o que pensa faltar-lhe. Vi crianças e adolescentes atribuírem ao pai ou à mãe qualidades que, evidentemente, não possuíam; feitos que jamais haviam tido oportunidade de realizar. A riqueza e as grandes possibilidades financeiras são também com frequência objeto da imaginação infantil; elas compensam as inúmeras negativas dos pais quando se trata de comprar uma ou outra coisa, mesmo modesta, que daria prazer às crianças.

O mundo se torna, assim, para elas um conto de fadas manifestamente mais agradável de habitar do que o mundo real cheio de durezas inaceitáveis[1]

• É preciso distinguir, dentre as mentiras da criança, a mentira social que tem por fim ajudar os outros; a mentira associal empregada em interesse pessoal, sem desejo de prejudicar outrem; a mentira anti-social, visando ao interesse pessoal sem preocupar-se com o mal que possa ocasionar aos outros.

É sempre preciso procurar bem a culpabilidade real da criança na sua mentira, e seria profundamente injusto reagir do mesmo modo ante uma mentira friamente inventada — particularmente para prejudicar outrem — e uma invenção imaginativa, estimulada pelo inconsciente e pela qual a criança não é de modo nenhum responsável, exigindo tão somente que a façam tomar melhor consciência do mundo real. 

• Segundo numerosos psicólogos, a maioria das mentiras infantis seria conseqüência do receio, algumas do interesse, da leviandade, do gosto da ficção, pouco do altruísmo e da maldade.

• Sucede que a criança mente para dar prazer aos pais. Mme. Dumesnil-Huchet nos conta:
"Uma mãe não achava uma caixa de bombons, e acusava a filha de 8 anos de ter comido os doces. Ao fim de ameaças e súplicas, diz a mãe: “Confessa e não serás castigada...” A menina se acusa do furto. Alguns dias depois, a caixa é encontrada intacta, e cabe à garotinha explicar à mãe surpreendida: “É, mamãe, tanto me pediste para confessar a verdade que pensei então que era preciso dizer sim para te dar prazer.” Influência da sugestão[2].
• Quando for impossível pretender que a criança não tenha querido enganar, deverá ser repreendida, porque Toda falta deve ter castigo e é preciso que não a deixemos pensar que pode facilmente engabelar os seus educadores.

Será então preciso tentar tudo para fazê-la confessar a falta: falar-lhe com bondade, elogiar a coragem dos que sabem reconhecer os próprios erros, não dar ênfase à punição que a espera.

Se a criança confessa, mostrar-se paternal, sem humilhá-la além da medida; contudo, é preciso impor uma punição normal, ao menos em grande parte.

Se a criança teima em negar, será preciso — sem ar de vitória, mas, ao contrário, com naturalidade — expor-lhe as provas de culpabilidade e pedir uma refutação. Esta decerto não virá, desde que a criança tem mesmo culpa, e então será advertida de que enganar os pais não é assim tão fácil quanto parece.

Cumpre então evitar tratá-la como mentirosa. Isto a enraizaria no defeito. É preciso considerar a falta como acidental.

Se uma criança abusa da confiança que lhe foi depositada, dizer-lhe em tom contristado que se está obrigado a retirá-la durante um tempo determinado; prometer-lhe, porém, que será restabelecida diante de provas de uma franqueza perfeita.

E nunca, daí em diante, lembrar à criança que ela mentiu.

• A educação da lealdade deve igualmente comportar a educação do tato, porque ser leal não consiste em dizer qualquer verdade a qualquer um e em qualquer oportunidade.



[1] DR. ARTHUS, Un Monde Inconnu: non Enfants, pág. 73. (Ed. Susse).
[2] Dr. GILBERT-ROBIN, La Guérison des Défauts et des Vices chez l’Enfant, pág. 500.
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