sábado, 14 de janeiro de 2017

20. A EDUCAÇÃO DA VONTADE - Primeira parte

Nota do blogue: Acompanhe esse especial AQUI.


20. A EDUCAÇÃO DA VONTADE

Um padre que exerceu profunda influência na sua paróquia — o Padre Marc, vigário de Saint-Nicolas de Troyes — escreveu um dia aos pais e mães de família uma carta aberta que começava por estas palavras:

“Vejo muitos pais... Eles me suplicam fazer “qualquer coisa” de seus filhos. Vejo também muitas crianças... conheço-as. O que a todas falta é o hábito do esforço. Não receberam formação a esse respeito; não se lhes exige bastante... transige-se... capitula-se... mas, elas são boas, possuem imensos recursos. Muita coisa se podia tirar de sua boa índole. Infelizmente, deixam-se viver... não têm vontade bastante... é o mal da época. É absolutamente preciso remediá-lo... desenvolver a energia das crianças. É urgente. Todo o futuro está nelas.”
• É um fato. Em numerosas famílias tem-se medo de pedir esforços à criança, e isto sob os mais fúteis pretextos: receio de contrariá-la, de fazê-la sofrer, medo de complicações, de vê-la amuada. É uma educação mesquinha e, mesmo, às avessas; porque as crianças que não sabem dominar-se, renunciar, preocupar-se com os outros de um modo mais ou menos adaptado à sua idade, serão mais tarde vencidas pela vida, quando não se tornam os carrascos dos que lhes ensinaram a se transformar em tiranos.

• Uma dirigente de colônia de férias escrevia em seu relatório:

“Em muitas famílias, são as crianças que mandam e olham a mãe como uma criada. As crianças são apáticas; empreendem as coisas quando lhes são ditas 25 vezes, e é preciso firmeza para que cheguem ao fim. No conjunto, não há por onde se lhes fixe. Têm sede: querem beber imediatamente; têm fome: querem comer a qualquer hora; estão cansadas: acabou-se, impossível ir adiante, etc... Os pais acham tudo isso muito natural e não reagem suficientemente. Certas mães respondem: “Fui educada com severidade, não quero que ele sofra como eu; ele verá com o tempo!”
• Outra dirigente, mãe de uma garotinha, respondeu quando lhe falaram de dar à filha educação física: “Isso não!... dou-lhe fortificantes, mas não quero que ela faça esforço!”

• A vida é feita para ser vencida, disse René Bazin. Se na idade em que se formam os hábitos a criança, diante de um esforço, adquire o complexo de vencer a si mesma, enriquece as reservas de energia que ajudarão, mais tarde, a dominar as dificuldades da existência.

• Para desenvolver a energia e a vontade nas crianças, é preciso que os pais dêem o exemplo, e é nesse ponto que a criança se torna, sem que o perceba, um dos educadores mais exigentes dos pais. É preciso que os pais zelem pelo estado físico e moral dos filhos. É preciso que se esforcem para nunca se queixar diante deles, nunca ter o ar triste, morno, abatido, desanimado.

• Não tenhais medo de pedir aos vossos filhos coisas um tanto difíceis. Mas é bom preveni-los e encorajá-los: “Vamos fazer um trabalhinho pesado, vais ver, porém, que chegamos a bom termo.”

• Não ter medo de apelar para o desejo instintivo de crescer, característica de todas as crianças. “Se queres tornar-te um rapazinho, mostra que tens coragem. Vamos, és uma mocinha enérgica; e quando se tem coragem, um pequenino incômodo não é razão para queixas.”

• No momento oportuno, fazer com que uma criança se orgulhe de sua firmeza. Um menino de 4 anos a quem o pai felicitava pela sua resistência à fadiga, após uma caminhada um pouco mais longa do que a prevista, respondeu: “Oh, papai, estou cansado, sim, mas não digo!”

• Apelar igualmente para a tendência infantil de procurar saber a opinião que os outros têm a seu respeito. Trata-se, aliás, de um legítimo processo de pedagogia.

Conheci um homem que havia praticado numerosas ações boas e uma quantidade considerável de ações deploráveis — escreve DUHAMEL em La Passession du Monde. Um dia em que o vi indeciso entre suas várias inclinações, comecei a dizer-lhe certas frases que se iniciavam mais ou menos assim: “O senhor, que é tão bondoso...    O senhor, que fez tal ou qual boa ação...”. Ora, aconteceu que esse homem se tornou realmente muito bom para não desmentir a reputação que lho fora atribuída. Se, ao contrário, eu lhe tivesse chamado a atenção para as suas baixezas de caráter, ter-se-ia, talvez, transformado num patife.”

• É tão importante desenvolver na criança a coragem e o espírito de sacrifício, quanto os hábitos morais parecem mais fáceis de adquirir antes do que depois da puberdade. Ora, é um fato que se pode gozar mais livre e profundamente as alegrias sãs e santas da vida à medida que nos sentimos capazes de renunciar a elas.

Resguardem-se os pais de uma solicitude meticulosa preocupada em facilitar demasiadamente a vida à criança e lhe aplainar todas as dificuldades. Saibam dar a compreender aos filhos, à medida que crescem, que devem conseguir pela própria energia a transpor as dificuldades comuns, e que, ordinariamente, devem se arranjar como puderem.[1] 

   • É preciso educar virilmente as crianças. É normal que por vezes recebam pancadas, arranhões, pequenos ferimentos sem gravidade. Claro que não se trata de deixar as feridas infeccionem; é, aliás, preciso ensinar as crianças a se tratarem por sua própria iniciativa. Como quer que seja, o que é preciso evitar é o papel ridículo dos pais demasiadamente sensíveis: “Ai, minha florzinha, em que estado ficaste!... Que coisa horrível!... Como sangras... que desgraça!...” A criança que se sente objeto de uma solicitude exagerada, imagina que acaba de ser vítima de um terrível acidente, e instintivamente procurará tornar-se centro do interesse geral, tanto mais quanto a sugestão aumenta as sensações dolorosas que se originam das feridas mais insignificantes. Os pais correm simplesmente o risco de fazer do filho um inquieto que se observa, receia qualquer sofrimento, transforma o menor incômodo em catástrofe, espreita o funcionamento do seu organismo e perde a cabeça com qualquer coisa.

• Evitemos também as interrogações inquietas, os ares de pena, as solicitudes excessivas: “Está doendo muito?... Dize-nos o que sentes...”. Os pais chegam a convencer os filhos de que são frágeis, incapazes de certos esforços ou de certos êxitos; daí, a timidez, os tiques, as fobias ou, por ação de ricochete, a atração pelas aventuras.

• Os pais devem dar aos filhos o exemplo da coragem. Quando conhecemos o desânimo ou o cansaço, ocultemo-nos das crianças até que possamos de novo aparecer na presença delas como devemos. E como poderia ser de outro modo? Elas devem se apoiar em nós; poderiam apoiar-se em Seres fracos e vacilantes?

• Quando o desgosto nos submerge, não contemos com as crianças para que nos apaziguem; não é Este o seu papel. Iríamos decepcioná-las e causar-lhes mal. Devemos ser grandes na prova, sem dissimular o seu caráter doloroso' às crianças, mas a fraqueza diante delas não nos é permitida.


[1] KIEFFER, op. cit. Pág. 231.
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