terça-feira, 26 de julho de 2016

15- A ARTE DE REPREENDER

Nota do blogue: Acompanhe esse especial AQUI.


15- A ARTE DE REPREENDER

Por definição, falta experiência às crianças. É papel dos pais alertá-las sobre os perigos que podem correr. Mas, os brados de alerta incessantes e desproporcionados acabam por embotar a atenção e a sensibilidade; e quando houver perigo real a prevenir, a intervenção dos pais não será então levada a sério.
• Há dois excessos a evitar em matéria de educação: o que consiste em jamais intervir — o “deixa-fazer”, o “deixa-passar” — ou a política dos olhos fechados: “Faze o que te agrada e deixa-me em paz”, política de demissão que pode culminar em consequências catastróficas; ou então, o excesso que consiste em intervir a cada instante por bagatelas. A verdade, como sempre, está no meio-termo. A criança precisa da ajuda do adulto e mesmo, quando é pequena, essa ajuda pode consistir numa espécie de adestramento incessante: a lembrança de uma dor (palmada ou ralho) relativa a um gesto ou a uma atitude repreensível. 
• Os bons exemplos e os estímulos ao bem nem sempre bastam em educação. A criança não nasce perfeita. Há nela tendências anárquicas e às vezes, quando menos se espera, pode manifestar um caráter ciumento, autoritário, independente, associal, etc... É, por conseguinte, normal que papai e mamãe canalizem, orientem no bom sentido as jovens forças vivas, por uma repreensão que, bem dosada, bem adaptada, aplicada a tempo, contribuirá para que a criança toque com o dedo as fronteiras do bem e do mal, do justo e do injusto, numa palavra, para formar o seu julgamento moral.
• Uma advertência, para ser eficaz, deve ser breve e rara. Se assume o ar de cena, de gritos intervalados ou superagudos, perde todo o efeito. A princípio amedrontada, mas logo indiferente, a criança deixará passar a tempestade à custa de nossa autoridade, mas também à custa da formação de sua consciência, porque uma consciência não se forma sozinha.

• É de todo interesse que as vossas intervenções se efetuem com serenidade e se revistam de um caráter pacificador. Terão, assim, podeis estar certos, um alcance salutar; mesmo que contrariem, momentaneamente, as defesas instintivas da criança, ajudá-la-ão por fim a dominá-las.
• A maioria dos pais não imagina até que ponto usa de autoridade por enxurradas de observações inúteis e secundárias, por insistência de recomendações acessórias, por excessos de solicitude que vão de encontro ao bem objetivado.
Por pouco que se observe num jardim, num trem ou num lar, uma mãe com o filho, é de espantar o número de advertências por vezes contraditórias e de repreensões por vezes ilógicas e injustificadas que chovem sobre os pobres pequenos: “Henrique, não corras mais, vais sentir muito calor...” E cinco minutos depois: “Não fiques aí plantado como uma árvore, vai brincar...” “Não te chegues tão perto da água...” “Cuidado com os sapatos, vais sujá-los!...” “Vais ainda desobedecer-me, como sempre...” “Que foi que te disse, Henrique?...” “É terrível ter crianças como esta!” “Não há nada a fazer contigo, não serves para nada.” E ainda é bom quando a pobre mãe, inconsciente do alcance de suas palavras, não acrescenta: “Vê-se bem que tens o gênio de teu pai!”
• A solicitude maternal só deve exercer-se no caso em que for verdadeiramente necessária. Fazer censuras sem fundamento é arriscar-se a falsear a consciência da criança, que não aprende a atribuir às ordens e às interdições a importância relativa que merecem; a criança não se desenvolve como deve, não realiza a sua própria experiência, suportando as consequências de suas tolices ou de suas imprudências (naturalmente, onde não houver grave perigo).
• Entre as vantagens oferecidas pelo sistema das reações naturais, encontramos desde logo a de que forneceu ao espírito, em matéria de conduta, aquela noção justa do bem e do mal que resulta da experiência dos bons e maus efeitos; secundariam ente, vemos que a criança, já não experimentando senão as conseqüências penosas de suas ações más, deve reconhecer mais ou menos claramente a justiça da penalidade; em terceiro lugar, que a justiça da penalidade sendo reconhecida, e a penalidade tendo sido aplicada pelas mãos da natureza e não pelas de um indivíduo, a criança se irrita menos com ela, enquanto que o pai, não fazendo senão cumprir o dever relativamente passivo que consiste em deixar o sofrimento produzir-se pelas vias naturais, conserva uma calma relativa; em quarto lugar, que, assim prevenida a exasperação mútua, relações mais suaves, mais fecundas em boas influências passam a existir entre pais e filhos.[1]
• Quando uma criança cai ou bate com a cabeça na mesa, sente uma dor cuja lembrança tende a torná-la mais atenta... Se toca na barra de ferro do fogão, se passa a mão na chama de uma vela ou recebe na pele uma gota de água fervente, a queimadura que sente é uma lição que não será facilmente esquecida. Uma criança habituada à inexatidão perderá o passeio, uma criança negligente, que perde ou deixa que se quebrem os objetos de seu uso, leva os pais à recusa de substituir os objetos perdidos ou quebrados. Mais tarde, uma criança que não cuida das suas roupas vê-se privada de sair com a família para uma excursão ou para uma visita a pessoas amigas. Mais tarde ainda, um rapaz descuidado ou inativo não obtém um lugar cobiçado; eis os castigos por meio de reações naturais, que acompanham as faltas cometidas.[2]
• A fim de ensinar e fazer com que a criança adquira consciência concreta do alcance do que diz ou do que faz, um dos meios mais eficazes consiste, sempre que possível, em levá-la a reparar material ou moralmente o mal que causou.
• Quando se tem de repreender uma criança é melhor (a menos que o erro seja público) fazê-lo em particular e em voz baixa.
• Não prolongar além da medida a conversa com a criança que agiu mal. Não aceitar igualmente a discussão. É melhor cortar o assunto sem mais explicações, com o sorriso calmo de quem possui boas razões e não deseja, no momento, expô-las. O “delinquente”, ultrajado, se esforçará então para adivinhar o que não dizeis. Os argumentos que procurará em lugar dos vossos adquirirão — porque ele os terá retirado do seu próprio íntimo — um valor que os vossos não teriam.
• Não deveis exigir sempre das crianças que reconheçam imediatamente os seus erros. É muito difícil, com efeito, para elas admitir de saída que agiram mal. Se deixam de sustentar teimosamente que estão inocentes, já é uma grande coisa, porque nesse momento, em seu íntimo, já estão perto de se reconhecerem culpadas e se renderem completamente às vossas razões.[3]
• O que é preciso evitar a todo custo quando se faz uma observação a uma criança, é compará-la a uma outra: “Olha como o teu irmão é bonzinho... — Ah, se fosses sempre como o Jaimezinho”, etc. Não há nada pior do que isso para criar entre a criança e o modelo proposto ciúmes e até mesmo inimizades implacáveis.
• Nunca ressuscitar, a propósito de um acidente qualquer, todas as velhas mágoas. Uma vez perdoada, a falta passada não deve ser mais lembrada. Voltar a ela é mostrar que nada foi esquecido e que se tem sempre em reserva uma certa história humilhante prestes a ser contada de novo. Há nisso algo capaz de desencorajar para sempre uma criança em seus esforços.
• Um dos casos que, em geral, suscita a intervenção tumultuosa dos pais é o de uma disputa entre irmãos e irmãs. Habitualmente, verifica-se que, depois de 4 ou 5 minutos de discussão, uma das crianças cede, seja porque se sente mais fraca, seja porque se mostra mais razoável do que a outra. Por que intervir quando o caso pode solucionar-se por si mesmo de maneira satisfatória?[4] Não desperdicemos nossa autoridade a propósito de faltas insignificantes. Se há abuso de poder por parte de um “déspota”, sempre há tempo para lhe dar uma concepção mais exata da justiça distributiva e da caridade fraterna.
• Conheço dois meninos que dormem no mesmo quarto. Naturalmente, brigam de quando em vez, e com maior frequência ainda brincam na hora de dormir. Foi-lhes dito que deviam calar-se logo que se deitassem, mas isso não serviu para grande coisa. Quando a luz se apaga e mamãe se retira, a alegria e a tagarelice se desatam. Uma noite, mamãe chega, pela segunda vez, para ralhar com os desobedientes. Semiconsciente da necessidade de infligir uma punição, semi-enternecida pelo riso que ainda vê nos lindos rostinhos, diz: “Será muito difícil obedecer? As mamães têm um trabalho difícil: transformar meninos desobedientes em homens bons e leais. Como vou conseguir isto com vocês? Não pensem que é engraçado!” Trata-se de uma simples observação e a mamãe não joga antecipadamente com a resposta; mas, de súbito, o menorzinho dos futuros “homens bons e leais” balança a cabeça e diz com vozinha envergonhada: “É, já pensei também que deve ser triste para o teu coração quando não somos bem educados!” E a mãe se retira contente e grata.[5]



[1] Spencer, cit., por Kieffek, L’Autorité dans la Famile et à l’École. pág 179 (Ed. Beauchesne).
[2] Kieffter, op. cit., pág 177.
[3] Lamers-Hoogveld, op. cit pág 198.
[4] Tanto mais que frequentemente nos enganamos sobre a intenção real da criança.
[5] J. Lamers-Hoogveld, op. cit., pág 180.
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