segunda-feira, 9 de setembro de 2013

TRATADO DO DESÂNIMO - Parte XIII

Nota do blogue: Acompanhar esse especial AQUI.

TRATADO DO DESÂNIMO NAS VIAS DA PIEDADE
Obra póstuma do Padre J. Michel - 1952


DESANIMAMOS POR NÃO QUERERMOS APROVEITAR OS MEIOS ORDINÁRIOS QUE ESTÃO AO NOSSO ALCANCE, E, POR PREGUIÇA, DESEJARMOS MEIOS EXTRAORDINÁRIOS.

É sempre ou pela falta de instrução ou pela desatenção à instrução que have­mos recebido, que incidimos na sem-razão mais inconcebível. Deus tem sobre os ho­mens duas espécies de providência: uma, extraordinária e milagrosa, na qual Ele age pela Sua onipotência; outra, comum e ordinária, na qual Ele age por meios cuja proporção com o fim que a Sua sa­bedoria se propõe a razão nos faz conhe­cer. A primeira é rara, passageira; só a emprega Deus para desígnios particulares; e o homem, a quem as razões dessa provi­dência são desconhecidas, não poderia contar com elas sem tentar a Deus.

Sem dúvida, o Senhor pode fazer mila­gres, mas não os prometeu a ninguém. Para ser dirigido nas suas ações e socorri­do nas suas necessidades, ninguém pode, pois, razoavelmente esperá-los. Se, a pre­texto de que Deus é senhor de fazer milagres, e de que os faz, um homem não fizesse nada para se proporcionar o que é necessário à vida, olhá-lo-íamos como estando no delírio. Mas contar com um milagre constante na ordem da graça, pa­ra a vida da alma, será menos agir contra os princípios estabelecidos no Evangelho?

A segunda espécie de providência é co­mum, ordinária, constante para todos os homens. Se o Senhor seguiu a primeira a respeito de alguns, transformando-os de chofre, logo os fez reentrar na ordem co­mum, conduzindo-os do mesmo modo que ao resto dos homens. Assim, S. Paulo (1 Cor 9, 27) orava com lágrimas, e reduzia seu corpo à servidão.

Essa providência comum e ordinária consiste em inspirar-nos na aquisição das virtudes, em fazer-nos conhecer os meios que a razão nos propõe para sermos bem sucedidos naquilo que empreendemos, e em dirigir esses meios pela religião e para o fim essencial do homem, que é Deus e a felicidade de possuí-lO.

Queremos sair-nos bem em alguma arte, em alguma ciência? o desejo que disto concebemos leva-nos a estudar-lhes os princípios com assiduidade, a ocupar-nos delas para gravá-las a fundo na mente, a fim de as termos sempre presentes quan­do se tratar da ocupação em que quere­mos aperfeiçoar-nos. Evitamos com cui­dado agir contra esses princípios; e, se alguma falta nos escapa, ao invés de de­sanimarmos redobramos de cuidado para repará-la o mais breve possível. Vede todos os homens que querem ser bem sucedidos no seu estado: o artista, o sábio, o magis­trado; achá-los-eis todos, seguindo a mes­ma rota, devorar o aborrecimento dos co­meços sempre tediosos e penosos, cons­trangerem-se constantemente, superarem as maiores dificuldades. Vede a conduta dos homens sensatos nos negócios do sé­culo: ocupam-se deles incessantemente; não poupam nem cuidado nem pena para serem bem sucedidos. A razão dirige-lhes a todos a mesma linguagem, e o êxito justifica a sabedoria dos meios.

Eis aí a providência comum e ordinária de Deus sobre os homens que querem tra­balhar para ser bem sucedidos na prática das virtudes e no grande negócio da sal­vação. Os meios são os mesmos; a diferen­ça vem só dos fins e dos motivos que eles se propõem. No mundo, só se procuram bens terrenos e perecíveis, os motivos são naturais. Na Religião, procuram-se bens celestes e eternos: os motivos são sobre­naturais; é Deus quem os inspira, e quem, pela Sua graça, ajuda nos meios.

Deus quer, pois, que desejemos a Sua glória na posse dos bens da eternidade; que nos ocupemos dela como do nosso bem essencial; que pratiquemos as obras que podem no-la assegurar; que evitemos com cuidado tudo o que possa fazer-no-la perder, ou colocar-nos em perigo de ser­mos dela privados. Numa palavra, Ele quer que, segundo as luzes da sã razão, elevada pelos motivos da Religião, não poupemos nem os nossos cuidados, nem as nossas penas, nem as proteções que temos no Céu, para sermos bem sucedidos: trata-se da eternidade.

O Senhor escolheu essa ordem de provi­dência, de preferência a qualquer outra que poderia ter empregado, porque Ele não é menos o autor da ordem natural do que da ordem sobrenatural. Quis, desse modo, colocar o homem na necessidade de traba­lhar pela sua felicidade, de não definhar numa ociosidade que o privasse de todo de­sejo, de todo sentimento por um bem que ele esperasse unicamente de Deus, sem pa­ra ele concorrer pelo menor esforço. Quis torná-lo indesculpável se não fizesse, pa­ra alcançar um bem eterno, o que faz to­dos os dias por bens perecedouros, por uma satisfação passageira, e se agisse contra as luzes da razão num negócio em que mais lhe importa segui-las.

É assim que, por essa providência cheia de sabedoria e de misericórdia, Deus, sem Se mostrar sensivelmente, conduz a Sua criatura pela Sua graça, e fá-la andar por uma trilha de fé, de esperança e de amor. Porquanto essas vistas, essas reflexões, esses sentimentos que vos fazem conhecer o que Deus pede de vós, e que vos levam a cumpri-lo, talvez os julgueis naturalíssimos, e no entanto é Deus quem vo-los inspira; é Ele quem vos sugere os motivos pelos quais deveis elevá-los, e quem vos mostra o fim para o qual deveis dirigi-los para torná-los úteis à vossa salvação. Sub­trair-se a essa providência, não fazer ne­nhum acolhimento a essas luzes, ou resis­tir-lhes, por não ser isso o que se pede a Deus, ou por alguma outra razão, é que­rer chegar à celeste mansão por outro caminho que não aquele que Deus marcou.

Que deve, pois, fazer uma alma que Deus prova por tédios? Baseada neste princípio de prudência, de que não devemos perder por culpa nossa um bem que se apresenta, que leva à felicidade, e isto pelo fato de não obtermos aquele bem que desejamos, essa alma, até que Deus lhe dê mais atra­tivos, sempre submissa à Sua vontade san­ta deve apegar-se com docilidade às gra­ças que recebe, seguir com gratidão essas luzes que a iluminam. Então achará sem­pre com que se sustentar e praticar o bem, pelos socorros ligados à providência comum e ordinária do Senhor.

O que justifica este princípio de prudên­cia e o consagra na Religião, é que, para seguir essa ordem de providência de que nunca se deve sair, não basta evitarmos certas faltas grosseiras, se descurarmos o bem que Deus pede que pratiquemos pe­las graças que Ele nos concede, e se não dermos a isso os nossos cuidados. As Vir­gens loucas (Mt 25) foram excluídas pe­la negligência que puseram em manter-se prontas para a chegada do Esposo. O servo preguiçoso foi condenado por não ter feito valer o talento que seu Senhor lhe confiara. Esse talento, é o tempo que Deus dá a uma alma; é a graça que ela recebe tantas vezes, e que tantas vezes ela torna tão inútil como o tempo que lhe fora dado para fazer bom uso dele. Esses exemplos de punição exemplar devem fazer tornar a entrar em si mesma essa alma tíbia e frouxa, e reconduzi-la à providência que Deus es­tabeleceu, aproveitando os socorros que ela recebe e que Deus escolheu para santificá-la.

Não olheis esta instrução como um sis­tema humano: Jesus Cristo consagrou-a no Evangelho, recomendando a vigilância e a oração, a renúncia à vontade própria desde que esta é contrária à vontade de Deus; a atenção a evitar o mal e a fu­gir do perigo. Por isto os Padres, os San­tos, esclarecidos pelo espírito de Deus, e que deram regras para conduzir as almas à santidade, não prescreveram nada de extraordinário. Ativeram-se a esses meios comuns: a oração frequente, as leituras santas, os exames de consciência reitera­dos, para se dar conta do seu proceder e corrigir o que nele houve de defeituoso; o silêncio, para se manter unido a Deus e evitar a dissipação, essa dissipação que é tão funesta sobretudo a uma alma que, perdendo de vista a Deus, nada mais faz por Ele, e já não tem outra regra e ou­tra guia senão os seus desejos e as suas inclinações.

Quanto mais examinardes esses meios, tanto mais conformes os achareis não somente ao Evangelho, como também à ra­zão. Em qualquer estado de tédio, de pena, de repugnância, de tentação que nos ache­mos, podemos sempre empregar esses meios; e Deus os fortalecerá pela Sua graça, se recorrermos a Ele com confiança.