quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Doutrina Cristã - Parte 1 (ESPECIAL)

Nota do blogue: Iniciarei hoje a transcrição de um ótimo catecismo escrito por Monsenhor Francisco Pascucci, 1935, Doutrina Cristã, tradução por Padre Armando Guerrazzi, 2.ª Edição, biblioteca Anchieta.

Que a leitura desse Catecismo nos ajude na busca por santidade, ao conhecermos mais e assim, amarmos mais a Deus e a Sua santa doutrina! 

Indigna escrava do Crucificado e da SS. Virgem,
Letícia de Paula


Prefácio do Autor

A publicação presente quer vir ao encontro de um desejo, várias vezes manifestado, mesmo por pessoas autorizadas, acerca de um texto que, breve e claro, desenvolvesse o programa proposto pela Comunhão catequística diocesana de Roma para o curso médio-inferior. 
É fruto de longa e madura experiência.
Há muitos anos que o ensino da doutrina cristã vem sendo o assunto preferido de nossa atividade sacerdotal, no vivo desejo de que as almas juvenis encontrem o caminho, a verdade; a vida no conhecimento de Jesus Cristo, Filho de Deus, Salvador.
Ousamos, pois, esperar não seja vã esta humilde fadiga.
Para colimar o seu escopo, não podia o texto ser mais breve.
Quanto à ordem e clareza, di-lo-ão aqueles a quem é destinado o livro. Pelo que nos toca, pusemos-lhe amorosamente o máximo cuidado, no intuito de sermos úteis aos que seguem o programa do curso médio inferior nas escolas secundárias, mas particularmente aos alunos desejosos de participarem das disputações diocesanas, assim como aos que se preparam para conseguir o diploma do ensino de religião no curso elementar.
Encontrarão aqui os professores a ordem a seguir nas lições e em gérmen as questões que lograrão desenvolver conforme a capacidade dos ouvintes; os discípulos terão um processo para mais facilmente fixarem os pontos fundamentais do programa desenvolvido no decurso do ano.
Não nos resta senão solicitar de Jesus, divino Mestre, que tem por sobremodo caros os meninos, uma grande bênção para ser fecunda a nossa boa vontade, afim de que, pelo assíduo estudo do catecismo, inúmeras almas de adolescentes saibam conhecer, amar e fielmente servir ao Senhor.

Mons. Francisco Pascucci

PARTE I
I. - RELIGIAO

1. - O cristão, isto é, aquele que, batizado, deseja seguir verdadeiramente a Jesus Cristo, professar-Lhe a fé e praticar-Lhe a santa lei, deve conhecer o necessário para conseguir o seu fim, isto é a vida eterna. Tudo isso, ele o aprende pelo estudo da Religião.
______

A palavra Religião, segundo alguns, deriva de relégere, isto é, tratar com cuidado, porque o homem religioso cuidadosamente trata das coisas de Deus; segundo outros, vem de religare, ligar, porque tem por fundamento o vínculo que liga o homem a Deus.
Esse termo, que pode oferecer vários sentidos, define-se em geral: "O complexo das relações que, ligam o homem a Deus".
Tais relações podem referir-se à vontade e à inteligência: - pela inteligência, temos as verdades a crer: pela vontade - a moral - isto é, as leis a observar.
De dois modos é possível adquirir-se o conhecimento dessas verdades e dessas leis: - simplesmente, como faz qualquer bom cristão, pelo estudo elementar do catecismo; cientificamente, apresentando as provas do que se deve crer e do que se deve praticar.
O estudo científico da Religião diz-se Apologética. É necessário ao cristão para dar a razão da sua fé e das suas práticas religiosas, assim como para saber responder aos contraditores da Religião.
A Apologética apresenta-nos a demonstração dos fundamentos da nossa fé e, especialmente, da existência de Deus.

II. EXISTENCIA DE DEUS

2. Muitos argumentos poderiam ser aduzidos para demonstrar a existência de Deus: - nós, pelo caráter do nosso tratado, nos limitaremos apenas a dois argumentos, dos mais fáceis, deduzidos da ordem do universo e dá existência da lei moral, reforçados pelo argumento do consenso universal do gênero humano.

1. - A ordem do universo

Todo efeito exige uma causa proporcionada a si mesma. Conseguintemente, onde houver ordem, há de ter havido um ordenador, isto é, uma inteligência que tenha ideado essa ordem e uma vontade que a haja querido assim.
Ora, há, no universo, uma admirável ordem, seja na estrutura íntima de cada ser, seja no conjunto das várias coisas harmonizadas entre si.
Logo, o universo é obra de um supremo ordenador, a quem chamamos - Deus.
Assim raciocina a própria criança, ao ver ordenados ao fim de marcar horas os maquinismos de um relógio: - não pode supôr que o relógio se haja formado por si ou como um efeito do acaso, mas o atribui a um relojoeiro.

2. - A existência da: lei moral

Todo homem sente em sua consciência uma lei que lhe impõe fazer o bem e fugir ao mal.
Toda lei supõe um legislador.
Ora, esse legislador não podemos ser nós mesmos, porque observamos que, pelo contrário, a nossa natureza mal suporta essa lei e quisera, antes, que tal lei não existisse; - não a sociedade, porque todos os homens, superiores ou súbditos, sentem em si tal lei.
Por ser, pois, lei universal, deve provir de um legislador acima e fora de toda a humanidade: - esse legislador é Deus.

3. - Consenso universal dos povos

Atesta-nos claramente a História que a existência de Deus foi admitida em todos os países e em todos os tempos. Os homens terão podido talvez errar quanto ao modo como formarem um conceito da divindade! mas foram sempre acordes em admitirei a existência.
Essa crença não pôde derivar do temor, porque se não teme um ser, cujo atributo principal é a bondade; - não da ignorância, porque a professam e comumente a admitem doutos e ignorantes; - não das paixões, porque a existência de Deus é, para elas, antes um incômodo.
Logo, urge concluir que foi imposta pela evidência objetiva, percebida pela razão.
O consenso universal dos povos vem, assim, dar uma conformação aos dois argumentos precedentes e constitui uma demonstração indireta da existência de Deus.
Aos argumentos da razão ajunta-se o argumento da fé por quanto o próprio Deus Se revelou ao homem de modo sobrenatural, Ele que Se revelara já ao homem por meio de Suas obras naturais.

III- A REVELAÇÃO

Definição. - Possibilidade. - Necessidade

3. - A Revelação é a manifestação de algumas verdades, feita por Deus à criatura inteligente.
A revelação é possível,
quer por parte de Deus, por que Ele é a Bondade infinita, sequiosa de comunicar-Se a criatura;
quer por parte do homem, por ser o homem inteligente, e, por isso mesmo, capaz de recebê-la.
Era necessária a revelação? Convém distinguir duas espécies de necessidades e duas espécies de verdades.
A necessidade pode ser absoluta ou física, ou pode ser necessidade moral.
Uma coisa é necessária de necessidade absoluta ou física, quando, sem ela, absolutamente se não pode conseguir o fim; por exemplo, a luz nos é absolutamente necessária para vermos os objetos.         
Uma coisa é necessária de necessidade moral, quando, sem ela, poderia conseguir-se o fim, mas imperfeita e dificilmente; por exemplo, a instrução, dada pelo professor, é necessária para eu aprender, embora por mim mesmo eu pudesse estudar.
Além disso, cumpre distinguir entre verdades de ordem natural, que formam a Religião natural, e verdades de ordem sobrenatural, que formam a Religião revelada.
No que respeita às verdades de ordem natural, que o homem, com suas forças naturais, lograria conhecer (existência de Deus, alma, eternidade, modo de honrar a Deus, etc.), a revelação só era necessária moralmente, enquanto a razão humana teria, sim, podido, sem ela, conhecer essas verdades, mas com dificuldade, muito imperfeitamente e exposta a muitos erros. Porque não possuem todos engenho suficiente, nem terão todos vontade e tempo de se aplicarem a estudá-las; e todos nós somos sujeitos a errar.
No que, porém, se refere às verdades de ordem sobrenatural, a revelação foi necessária absolutamente, porque o homem, munido apenas das forças naturais, não poderia conhecê-las, e, por outro lado, tal conhecimento lhe era necessário para obter o fim sobrenatural a que Deus, por bondade, o elevara.

4. - Períodos da Revelação

4. - Deus não revelou de uma só vez ao homem todas as verdades religiosas; mas fê-lo gradativamente.
Daí, três períodos na divina revelação: - primitivo ou patriarcal, mosaico e cristão.
O período primitivo ou patriarcal vai da criação a Moisés: - nele, falou Deus aos patriarcas revelando-lhes algumas verdades e vários preceitos, entre os quais os da lei natural.
A revelação, deviam conservá-la na consciência e passá-la de geração a geração, para o que sobremaneira contribuía a longevidade dos Patriarcas.
O período mosaico vai de Moisés à vinda do Redentor, - e, neste, falou Deus ao povo eleito por meio de Moisés e dos profetas, revelando-lhes novas verdades, sobre dar-lhes, em duas tábuas de pedra, a lei escrita.
O período cristão abrange a revelação feita pelo nosso Redentor divino, que aperfeiçoou a revelação primitiva e a revelação mosaica no tocante às verdades ensinadas e aos preceitos da lei natural, e cumpriu as promessas contidas nas revelações precedentes.
Com a morte do último apóstolo, São João Evangelista, encerrou-se a revelação. Depois desta, não há mais verdades novas a revelar.
Quando, pois, a Igreja docente nos define uma verdade de fé, não acrescenta verdade nova ao depósito da revelação, mas apenas define, isto é, declara, de modo a ninguém poder duvidar, que aquela verdade estava já implícita na revelação, e desta lhe deduz as provas.

5. Fontes: Sagrada Escritura e Tradição

5. - São fontes da revelação divina – A Sagrada Escritura e a Tradição.
A Sagrada Escritura ou Bíblia é o complexo dos livros escritos por inspiração de Deus e declarados tais pela Igreja.
A Sagrada Escritura tem por autor primário a Deus, e, como simples instrumento, o escritor.
Deus não ditou uma por uma todas as palavras ao escritor, mas inspirou-o, isto é, iluminou-lhe a mente nas coisas que Ele queria fossem escritas, moveu-lhe a vontade para escrever e assistiu-lhe de tal modo que não errasse em nos comunicar o divino ensinamento.
Além do que os livros da Sagrada Escritura também gozam de autoridade humana: - considerados ótimos documentos históricos, porque são genuínos, isto é, do autor da época a que se atribuem, ou, pelo menos, não publicados como obras de outros autores ou de outras épocas: são verazes, isto é, não enganam e não querem enganar; são íntegros, isto é, chegaram até nos tais quais saíram das mãos de seus autores.
Os livros da Sagrada Escritura dividem-se em Velho e Novo Testamento.
A palavra Testamento significa pacto ou aliança:
o Antigo Testamento é a aliança de Deus com o povo hebreu;
o Novo é a aliança de Deus com a humanidade inteira, aliança selada com o sangue de Jesus Cristo.
Em cada Testamento, dividem-se os livros em históricos, proféticos e sapienciais.
Os principais livros históricos do Novo Testamento são os quatro Evangelhos escritos por São Mateus, São Marcos, São Lucas e São João.
A Igreja, mestra infalível, dá-nos o Canon, a saber - a lista autêntica dos livros divinamente inspirados. Segundo esse Canon, sancionado pelo Concilio Tridentino, compreende a Bíblia 71 livros - 44 pertencentes ao Velho Testamento e 27 ao Novo.      
A Tradição é o ensino de Jesus Cristo e dos Apóstolos, feito de viva voz, e transmitido, sem alteração, até nós, pela Igreja. A Tradição é uma fonte de revelação, anterior e mais vasta que as Escritura, e merece a mesma fé.
Encontra-se a tradição nos símbolos e nas profissões de fé, nos atos dos Concílios, nos escritos dos Padres da Igreja, na prática geral e constante da própria Igreja, na liturgia, etc, Assim como a Sagrada Escritura, a Tradição foi também confiada ao magistério infalível da Igreja.

6. - Caracteres internos e externos

6. - Os caracteres, para se reconhecer se uma verdade ou um complexo de verdades, e, portanto, da religião, são revelados, uns são internos, externos outros.
A. - Os caracteres internos são negativos ou positivos.
Os caracteres negativos consistem em que não pode ser revelada uma doutrina que encerre contradições ou coisas contrárias à reta razão ou aos bons costumes; e, pelo contrário, pode ser revelada, desde que esteja plenamente em harmonia consigo mesma, com a razão e com a regra dos bons costumes.
Os caracteres positivos consistem em santidade, sublimidade e pertinácia de doutrina tais como não as poderia sequer imaginar a mente humana.
B. - Os caracteres externos são os milagres e as profecias, enquanto aqueles e estas somente poderiam provir de Deus; sendo revelada a doutrina à qual Deus apôs tal selo.
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