segunda-feira, 16 de julho de 2012

Fé/Esperança/Caridade


Cônego Júlio Antônio dos Santos
O Crucifixo, meu livro de estudos - 1950




CARIDADE

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1 - Há um fresco do século XVI que representa, senão com arte, pelo menos com verdade, os misteriosos efeitos da Paixão de Jesus.
- No centro, Jesus Crucificado. Das quatro extremidades da cruz saem mãos que sustentam diversos objetos. A mão que sai do pé da cruz tem um martelo com que despedaça as portas do limbo onde estavam os justos da antiga Lei. A mão que sai do cimo da cruz tem uma chave, e abre o Céu onde reina o Pai eterno. A mão, que sai do braço direito da Cruz, tem uma coroa, e esta coroa coloca-a na cabeça da Igreja que avança sustentada pelos quatro Evangelistas e protegida por Maria. A mão que sai do braço esquerdo da cruz, empunha uma espada e crava essa espada na Sinagoga que fica imóvel no seu cavalo cansado sobre o peso da maldição lançada contra Eva.

2 - Mistério incompreensível: fonte da vida para a lgreja, a Paixão é uma ocasião de morte para a Sinagoga! O quadro explica-nos este mistério. Ao passo que a Igreja recolhe piedosamente o Sangue que corre do coração alanceado de Jesus, a Sinagoga, de olhos vendados; não pode reconhecer o Redentor.

O centurião Longino

            O centurião Longino havia sido testemunha da paciência com que Jesus sofria, da generosidade com que morria; havia sido curado miraculosamente de uma vista por algumas gotas de Sangue que lhe salpicaram os olhos no momento em que retirara a lança com que trespassou o peito e o coração de Jesus. Neste instante, a divina Providência faz um prodígio ainda maior: ilumina-lhe a alma e transforma-lhe o coração e então exclama com fé viva: «Eu reconheço e confesso que este homem era verdadeiramente o Filho de Deus.»...
            A exemplo deste bravo capitão os seus soldados testemunhas dos mesmos prodígios, esclarecidos pela mesma luz e dóceis à mesma graça fazem a mesma profissão de fé: - «Sim, este homem era verdadeiramente o Filho de Deus».
Que o sangue de Jesus Cristo caia também sobre a nossa inteligência para iluminar, sobre o nosso coração para o purificar e sobre a nossa alma para a santificar.

Que é a fé?

A fé é uma virtude sobrenatural pela qual, sob inspiração e com o auxílio da graça divina, cremos firmemente todas as verdades reveladas por Deus e propostas pela Igreja.

I- Ato de fé

1. A fé é um ato da inteligência

Antes de crer examinamos primeiro se o que devemos crer é realmente revelado, Deus quer esta investigação porque exige uma obediência racional.

2 - A fé é um ato da vontade

Logo que a inteligência adquiriu a certeza de que a doutrina proposta foi revelada por Deus, a vontade deve logo submeter-se à palavra divina ainda que a razão não compreenda esta doutrina em si mesma.

3- A fé é um ato da graça

            A virtude ou ato é sobrenatural, quer dizer, exige a cooperação da graça.
            A graça é necessária por três razões: 1.ª Para iluminar e nortear o espírito, a fim de que não se deixe arrastar pelo erro impedindo assim que reconheça o fato da Revelação e aceite as verdades contidas nela. 2.ª Para purificar e fortalecer a vontade. É preciso que a justiça comova o coração, dispondo-o a abraçar as verdades que contrariam as paixões. 3.ª Para ter a faculdade de acreditar. Para crer nas verdades de ordem revelada é necessária uma facilidade de ordem sobrenatural - a graça da fé.
            Assim como Deus nos deu olhos e com eles a força de ver as coisas, a inteligência e com ela a força de conhecermos; assim também nos dá a fé e com a fé, a potência, a força de crermos na Sua palavra, que nos é anunciada pela Igreja.
A fé dá-nos a conhecer as verdades de ordem sobrenatural, desta ordem que, elevando-nos acima dos sentidos e da simples razão nos faz viver na eternidade da vida e da glória.
            A fé é uma luz colocada pelo Salvador nas nossas mãos para nos conduzir e guiar no caminho do Céu.
            A fé é para a razão o que o telescópio é para a vista. O que já não podemos ver a olho nu, o telescópio no-lo descobre em novos mundos e novas maravilhas.
            Longe de contrariar a razão, a fé só lhe serve de luz ou apoio.

II- Objeto da fé

            O objeto da fé é toda a revelação divina.
            Ainda que o objeto da fé abranja a revelação inteira, convém fazer uma distinção entre o conjunto das verdades reveladas por Deus e as verdades particulares que a Igreja nos ensina em nome de Deus.
            1º. Fé divina é a que tem como objeto o conjunto das verdades reveladas por Deus. Para que uma verdade seja de fé divina basta, portanto, termos a certeza de que foi revelada por Deus.
            2.º Fé católica é a que tem por objeto as verdades relevadas por Deus e ensinadas pela Igreja, às quais se dá o nome de dogmas, verdades ou artigos de fé. Para que uma verdade seja de fé católica é condição necessária a promulgação pela Igreja.

III- Motivos da fé

            O motivo da fé, diz o Concílio do Vaticano, é a autoridade do próprio Deus, que nos revela as verdades e não pode enganar-Se nem enganar-nos.
            Toda a certeza das ciências, por maior que seja, não chega, nem para lá caminha, à certeza da fé; porque têm sempre alguma dependência dos sentidos, que são enganadores; das experiência, que são variáveis; dos raciocínios, que muitas vezes, não são exatos; da ilação que não pode ser universal; da conexão dos efeitos com as suas causas, que, as mais das vezes, nos é desconhecida. À fé torna-nos tudo bem certo e inabalável; pois é tão impossível que eu me engane, como é impossível que Deus Se engane a Si mesmo ou me engane a mim. Creio porque Deus o disse e porque Deus não se engana nem pode enganar. 

CONTINUA...
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