sábado, 23 de outubro de 2010

ESPECIAL: As sete palavras de Nosso Senhor Jesus Cristo

ESPÍRITO E VIDA
(As Sete palavras de Nosso Senhor Jesus Cristo,
pelo Pe. J.Cabral, edição de 1935)


SEDE BEM-VINDAS, Ó PÁGINAS CONSOLADORAS
O REDENTOR DO MUNDO
VII - PALAVRA

__________________________

SEDE BEM-VINDAS, Ó PÁGINAS CONSOLADORAS

(...) Que diremos e que pensaremos de Jesus Crucificado? Ele está mil vezes mais perto do que as figuras de nossa história e de nossos contos; a Ele estamos unidos por afinidades mais estreitas e por laços mais fortes do que os da aliança ou do sangue. Ele para nós é tudo.... omnia et in ommbus Christus
(Eph. 4,6; Col, 3,11).

Não tivemos a alegria de vê-lO, de ouvi-lO, de segui-lO, passo a passo. Mas sabemos quem é Ele, de onde veio, aquilo que realizou, o que sofreu... patres nostri narraverunt nobis. Os séculos cristãos falaram-nos d'Ele - e em que termos! - Eram os herdeiros das primeiras testemunhas sicut tradiderunt nobis qui ab initio ipsi viderunt.

Que nos informaram estes séculos pretéritos? Que jamais grandeza tamanha conheceu tão grande infortúnio; que jamais destino maior foi humanamente mais lamentável pela extensão das penas e amarguras, pela injustiça do tratamento; que um amor mais desinteressado e magnanimo nunca se achou tão desprezado! Que mais será preciso afim de nos comover? Felizes, em verdade, os homens que, desde cedo, se impregnaram destas evocações tão importantes! Que acentos acham os corações generosos quando as reavivam!

É nosso dever conservar estas recordações da Paixão de Jesus Cristo com o mais religioso cuidado.

Recogitate eum qui talem sustinuit a peccatoribus contradictionem (Heb. 12,5). Releiam a Paixão; sigamos hora por hora, palavra por palavra seus pormenores impressionantes. Refaçamos, passo a passo, a estrada ensangrentada cujas pedras Lhe foram atiradas por mãos de algozes sem entranhas. Sigamos a via da amargura com o pequeno grupo fiel, com a Mãe Dolorosa, com as santas mulheres, com o discípulo amado. Demoremo-nos aos pés da Cruz, no alto do Calvário, e escutemos as palavras de Jesus Cristo.

Amemos aquelas chagas que, no dizer de Bossuet, formam a beleza do Cristo. Elas são os sinais de Sua soberania. Pela efusão do sangue na Cruz Ele é, ao mesmo tempo, o Rei Salvador e o Pontífice Salvador. Ele não é como os devastadores de província; triunfa pela ventura que destina aos Seus filhos.

"Nestas linhas apagadas, nestes olhos machucados, neste semblante que inspira desolação, diz Bossuet, eu descubro os traços de incomparável beleza: Não! Não! estes cruéis dilaceramentos não desfiguraram o semblante do Salvador; aformosearam-nO a meus olhos. São minhas delícias as chagas do Redentor. Eu as beijo e as orvalho de lágrimas. Há no amor de meu Rei Salvador o singularíssimo esplendor de uma beleza que transporta as almas fiéis".

Escreveu com acerto Santo Agostinho:

"Crux Christ non solum est lectulus morientis sed et cathedra docentis (Orat; 119 in Joannem)" - A Cruz não é somente o leito de dor em que Jesus expira, mas é a cadeira de onde Ele ensina."

Pelas palavras e pelos exemplos que promanam desta cadeira, o Salvador edifica as almas através dos séculos. No Segundo sermão sobre a Paixão dá Bossuet ao Divino Crucificado o nome de  livro "Abri vós mesmos este livro... as letras são de sangue... empregaram o ferro e a violência para gravá-las profundamente no corpo de Jesus Crucificado".

O livro preferido dos santos era o Crucificado; encontravam ali a fonte da ciência que os levava para Deus. Repetia São Jerônimo aos discípulos:

"Lede e relede o Cristo".

São Vicente Ferrer não se separava jamais de seu crucifixo; declarava que este contém todas as luzes das Sagradas Escrituras, chamava-o sua grande Bíblia.

Compararam São Thomaz de Villa Nova a São Paulo pela doutrina e a Elias pelo zelo. Onde hauriu o confessor da fé a sabedoria sobrenatural com que converteu e iluminou tantas almas? respondeu ele um dia: "menos nos livros do que nos pés do Crucifixo!"

O Crucificado é a escola das renúncias quotidianas. À vista da imagem do Redentor, na Cruz, Santa Izabel da Húngria, Santa Catarina de Senna e Santa Marganda de Cortona rejeitaram a púrpura, os ornatos deste mundo e a fascinação das bagatelas.

O Crucifixo é a escola da oração.

Santa Teresa, Santa Madalena de Pazzi, São Bruno, São Bernardo, São Francisco de Assis, São Boaventura, todos os grandes contemplativos da idade Média onde terão encontrado as labaredas do amor de Deus?

O Crucificado é para os fiéis manual de meditação quotidiana. Ele abençoa os trabalhos, santifica as conversações, tempera os prazeres e balsamiza os sofrimentos.

Ao pé da Santa Imagem, repete o cristão as palavras de São Paulo:

"Sicut abundant passiones Christi in nobis, ita et per Christum abundat consolatio nostra. - Assim como são abundantes os sofrimentos de Cristo em nós, assim também pelo Cristo é superabundante nossa consolação."

Sofremos todos nós através da vida. O Crucificado, relembra-nos que, unida à Paixão de Cristo, a dor é expiatória e meritória; ensinar-nos-á que a dor é amável em seu exemplar divino.

Perreyve escreve, numa página de emoção:

"O pranto corre bem sobre Vossa imagem, ó Divino Crucificado. As lágrimas do homem conhecem-nO. Há entre a Cruz e as dores humanas eterna conformidade."

"Não posso mais orar, murmurava Lacordaire, nos momentos derradeiros, mas eu O contemplo!" E não tirava os olhos do Crucificado.

No alto da fogueira, prestres a ser devorada pelas chamas, Santa Joana d'Arc cobria de beijos e lágrimas uma cruz de madeira feita, no momento, por um soldado.

Suplicou que lhe trouxessem o Crucificado da Igreja próxima. Foi atendida. Ao religioso, que a acompanhava, pediu que levantasse a Cruz e a conservasse bem alto, enquanto ela estivesse viva; queria contemplá-la até o suspiro extremo. As labaredas envolveram-na. E a heroína francesa morreru com os olhos fixos na imagem de Jesus Cristo pregado à Cruz.

São Francisco Xavier, o general Lamoricière e Pasteur, nos minutos finais, seguravam e beijavam o Crucifixo.

Um poeta do século passado pergunta ao Crucificado, em estrófes sublimes, o que é que Ele murmura aos ouvidos do moribundo:

"Aos lábios dos moribundos colados na agonia - como derradeiro amigo, para iluminar o horror desta passagem estreita, - para soerguer até Deus seus olhares amortecidos, ó Divino Consolador, - cuja imagem osculamos, - responde: que lhe dizes Vós?"

A história da Igreja responde:

"Ao ouvido dos pecadores o Crucificado murmura uma palavra de perdão; aos que tremem, uma palavra de confiança; às almas puras, uma palavra de amor".
(O livro de J. Hoppenot de que colhem esta formosa página intitula-se Le Crucifix dans l'Histoire, dans l'art, dans l'ame des Saints et dans notre Vie.)

Uma alma de virtudes eminentes compôs estas estrófes admiráveis que tecem a mais sentida e a mais fervorosa das preces:

Meu Crucificado!
Eu O levo a toda a parte;
Eu O prefiro a tudo;

Quando caio, Ele me levanta;
Quando choro, Ele me consola;
Quando sofro, Ele me cura;
Quando tremo, Ele me tranquiliza;
Quando chamo, Ele me responde.

Meu Crucificado!
Ele é a luz, que me ilumina;
O sol, que me aquece;
O alimento, que me nutre;
A fonte que me desaltera;
A doçura, que me cura;
O bálsamo, que me cura;
A beleza, que me encanta!

Meu Crucificado!
Ele é a solidão, em que repouso;
O reduto, a que me acolho;
A frágua, que me consome;
O oceano, em que mergulho;
O abismo, em que me perco!

Feliz a inspiração do Revmo. Cônego J.Cabral, no tema escolhido para estas páginas de espiritualidade. É grande, é muito grande, no Brasil, o número de corações, que consagram fervorosa à Sagrada Paixão de nosso Redentor. Com quanto enlevo, com que intenso júbilo, acolherão estas almas o livro precioso do ilustre publicista!

Através destes capítulos enriquecidos, pela mais pura doutrina dos Santos Padres, aprenderemos as lições de Jesus Cristo agonizante.

Quantos e quão preciosos ensinamentos, quantas consolações profundas, iremos encontrar nas palavras que o Mestre Divino pronunciou na agonia do Calvário! Que soma incalculável de benefícios espirituais vão estas páginas espalhar na seara imensa das almas!

Sede bendito, ó Testamento emocionate do Redentor dos homens!
Sede bem-vindas, ó páginas consoladoras!

(Padre Heliodoro Pires, São Paulo, dia do Preciosíssimo Sangue de N.S.Jesus Cristo, 1-VII-1936)

PS: Grifos meus.
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