segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Os mártires e o Céu


O pensamento dos fiéis das primeiras gerações cristãs estava dirigido para a vida futura de uma forma mais geral e mais constante do que pensamos. Eles viviam em uma espécie de familiaridade com esse Além misterioso, do qual as almas piedosas fazem ainda o essencial de suas meditações. A crença e a esperança no Céu tem sido um estímulo poderoso para a prática da virtude, sobretudo em situações difíceis ou mesmo trágicas, em que se necessita de uma coragem heróica. Era, com efeito, o pensamento da recompensa eterna, a esperança que sustentava os cristãos conduzidos ao suplício.

O Pe. François Cuttaz escreve, com muito propósito sobre o exemplo dos mártires:

Não se pode deixar de ficar admirado quando se lêem as Atas dos Mártires, do lugar considerável que nelas ocupa o pensamento do Céu. Entre os cristãos dos primeiros, a crença geral era que os mártires iam diretamente unir-se a Cristo. E os fiéis, para encorajar seus irmãos a não fraquejarem, não temiam fazer valer a seus olhos esse prêmio magnífico de seu combate."

"Ó mártires benditos, escreve Tertuliano, os sofrimentos que vos esperam são bem pouca coisa diante da glória celeste e da divina recompensa que eles vos alcançam." (Ad Martyres, ep. 4, PL 1,626). E São Cipriano: "A morte dos justos é preciosa aos olhos de Deus; sim preciosa, uma vez que compra a imortalidade ao preço de sangue." (Epist. 10, ad martyres confessores, 2,3)

O primeiro mártir cristão, Santo Estevão, exclamava enquanto os judeus o lapidavam: “Eis que vejo os céus abertos, e o Filho do homem em pé à direita de Deus... Senhor Jesus recebe o meu espírito.” (At 7,56-59) Santo Inácio de Antioquia, conduzido ao martírio, pedia aos cristãos de Roma: “Deixai-me ser o alimento das feras pelas quais me será dado gozar de Deus... Caiam sobre mim os suplícios do demônio desde que eu goze de Jesus Cristo... Fazei-me a graça, irmãos, não me priveis da verdadeira vida... Deixai-me receber a pura luz; é quando chegar lá que eu serei verdadeiramente homem.”

Santa Felicidade assim exortava seus filhos a suportarem os tormentos do martírio: “Levantai os olhos, meus filhos, olhai o Céu, Jesus Cristo vos espera com os Santos”.A mãe de São Sinforiano exortou nos mesmos termos seus filhos ao martírio: “Hoje, filhos, migrareis para a felicidade da vida eterna”.

O primeiro filósofo cristão, São Justino, perguntado ironicamente pelo prefeito Rusticus: “Se eu te fizer flagelar e decapitar, pensas que irás ao Céu?”, respondeu: “Eu não penso, eu o sei”. Do mesmo modo o mártir Evipode respondeu a seus juízes: “Que me importa o gênero de morte, desde que eu suba ao Céu junto Daquele que me criou?”.

Na Paixão dos Santos Tiago, Mariani e outros muitos mártires da Numídia, é narrado que na véspera do martírio desses santos apareceu um mártir sentado em meio a alegre banquete, que lhes disse: “Alegrai-vos: amanhã vós estareis conosco, entre os convivas deste festim.”

Verdade de fé
Os dogmas sobre o Céu são atestados pelos Símbolos de Fé: Símbolo dos Apóstolos, de Nicéia, de Santo Atanásio. As heresias opostas à existência do Céu foram condenadas pelos papas Bento XII (1336), Clemente V (1311) e São Pio V (1567). A Igreja definiu como dogma de fé a existência e a eternidade do Céu. Eis aqui algumas declarações dogmáticas:

2º Concílio de Lião (1274):As almas, depois de recebido o sagrado Batismo, não incorreram em manha alguma de pecado, e também aquelas, que depois de contraída, se purificaram enquanto permaneciam em seus corpos ou depois de se desprender deles [no Purgatório], são recebidas imediatamente no Céu”.
Bento XII (1336):Por esta constituição, que há de valer para sempre, declaramos que as almas de todos os santos que saíram deste mundo... estiveram, estão e estarão no Céu... onde são verdadeiramente bem-aventuradas e têm vida e descanso eterno”.

Vemos assim que a existência do Céu, não somente está de acordo com a razão e a Tradição, mas é uma das verdades mais presentes nas Escrituras, assim como nos monumentos da Antiguidade cristã. Foi ainda definida como dogma de Fé pela Igreja.

(O Céu – Esperança de Nossas Almas - Gustavo Antônio Solimeo)
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