domingo, 11 de outubro de 2009

O valor do silêncio


- Ó quão poucas são as palavras que os homens falam retamente! Todo o dia falamos e tudo são linhas erradas que não vão parar ao ponto que deviam, nem conduzem para honrar a Deus, nem para amar o próximo, nem para a caridade bem ordenada de si próprio. Tantas novas, tantas fábulas, tanto gracejo, tanto cumprimento, tanta lisonja, como se encaminha isso para o ponto da honra de Deus? Tanta jactância e louvor próprio, tanto mexerico e revelar de segredos, tantos piques e asperezas no trato do próximo, tanto clamor e enfados no governo da família, tanto ruído e murmurinhos quando assistimos na Igreja. De que serve isto para o ponto do amor do próximo, ou da caridade própria bem ordenada? Se o escrever se parece com o falar em muitas coisas, em verdade que muitos homens provectos ainda  agora escrevem como meninos: tudo riscos, descompassados e torcidos.

- Primeiramente, a matéria das nossas palavras há de ser plana, onde não ache tropeços a consciência, e limpa, onde não haja sombras e manchas contra a pureza do coração.Ó grande engano o nosso! Nós não queremos falar coisas boas, e queremos falar bem?
A matéria das nossas práticas ordinariamente são coisas vãs, e queremos que as palavras sejam santas e virtuosas? Não pode ser. Que onde se não fala senão coisas vãs, ainda que seja um santo quem fala, há de encher-se de pecados e perder as virtudes.

- É tão danoso o falar, que, uma vez que estamos entre pessoas faladoras, não é bom senão calar; e se se há de falar, melhor será com os que calam.

- O pouco falar costuma andar junto com o obrar muito.

- Coisa é por certo digna, ou de riso, ou de lástima, que um religioso tenha tão pontual cuidado em fechar a cela, e tão pouco em fechar a boca; e que trazendo consigo continuamente a chave, por que lhe não entre alguém na cela, perca a cada passo o silêncio, não curando de que os pecados lhe entrem na alma.

- Se o silêncio importa muito, também não custa pouco.

- Quem quiser rezar há de pôr a boca no pó da terra, calando-se: Ponet in pulvere os suum, e não o pó da terra na boca, falando em vaidades.

- A porta ora se fecha, ora se cerra somente, ora se abre, e isto ou de todo ou em parte, conforme é necessário ou conveniente. Assim também a língua ora há de estar fechada com a chave do silêncio, quando é obrigação calar. Ora há de estar só cerrada, quando é escusado falar. Ora há de estar aberta pouco ou muito, quando é conveniente falar mais ou menos. Por isso, pois, diz o sábio: Ori tuo facito ostia et seras.

- As balanças servem de examinar o peso das coisas primeiro que as entreguemos. Assim as nossas palavras primeiro que a língua as entregue, o entendimento há de ponderá-las. E porque hão de ser balanças de ouro e prata? Porque estas servem  para pesos mais miúdos e pequenos, e para coisas mais preciosas. E quis dar-nos a entender que as palavras havemos de examinar com muita miudeza e atenção.

- Quem fala pouco com os homens fala muito com Deus e com o seu coração. E quem fala muito com Deus e com o seu coração, quando chega a falar com os homens, fala bem: Loquebatur recte. Enfim, que o silêncio santo e discreto é a cura dos males da nossa língua, assim nesta vida como na outra.

- Quem não sabe refrear a sua língua não será perfeito, nem terá virtude, nem dará nunca bom exemplo.

(As mais belas páginas de Pe. Manuel Bernardes - Editora Melhoramentos)

PS: Grifos meus
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