domingo, 18 de outubro de 2009

O flagelo romano


"Não tinha presença nem beleza para atrair nossos olhares,
nem aspecto que nos cativasse.
Desprezado e evitado pela gente, homem acostumado a sofrer,
curtido na dor; ao vê-Lo cobriram o rosto;
desprezado, nós o tivemos por nada;

Ele, que suportou nosso sofrimentos e carregou nossas dores,
nós o tivemos como um contagioso,
ferido de Deus e afligido.
Ele, ao contrário, foi trespassado por causa de nossas rebeliões,
triturado por causa de nossos crimes.

Sobre ele descarregou o castigo que nos cura,
e com suas cicatrizes nos curamos.
Todos nós andávamos perdidos como ovelhas,
cada um para o seu lado, e o Senhor fez cair sobre Ele
todos os nossos crimes.

Maltratado, suportava, não abria a boca;
como cordeiro levado ao matadouro,
como ovelha muda diantes do tosquiador,
não abria a boca."
(Isaías 53, 2-6)

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O que é flagelação?

O flagellatio romano, mais conhecido como flagelação, era uma das mais temidas de todas as punições. Um castigo brutal e desumano, usualmente executado pelos soldados romanos, que usavam um dos mais terríveis instrumentos da época, chamado flagrum, ou, nas palavras de Horácio, “o horrível flagelo”. A flagelação era um procedimento normal entre os romanos antes da crucificação. Muitos acham que no açoitamento era usado um chicote comum. De certa forma isso é correto, mas seria como comparar um choque elétrico a um raio.


O flagrum era confeccionado de várias formas, sendo que a mais corriqueira era a de um chicote de couro com três ou até mais extremidades também de couro com bolinhas de metal, ossos de carneiro (astragals) e outros objetos pendurados ao final de cada uma, principalmente em forma de haltere. Esse tipo de flagrum é o mais compatível com as descobertas relativas ao Sudário. As evidências indicam que o flagrum com várias extremidades e suas esferas de chumbo (plumbatae) ou osso era usado principalmente nas crucificações. Em 1709, um exemplar do flagrum romano, com várias extremidades e objetos em forma de haltere, foi encontrado nas escavações em Herculaneum, antiga cidade romana destruída por uma erupção vulcânica em 79 d.C.

Mais raramente, os pesos nas extremidades do flagrum eram pontiagudos e chamados de scorpiones. Havia outros tipos de flagrum; uma cuja estrutura trazia três correntes; outro contendo pequenos objetos em forma de botões e, ainda, uma versão mais rara e sofisticada, com vários pedaços de ferro ou zinco presos intermitentemente, em intervalos, ao longo de cada tira de couro (mostrado no baixo-relevo de uma estátua de Cibele no Museu do Capitólio, em Roma). Um tipo de chicote mais simples, chamados cutica, também era usado.

Como a flagelação era executada?

Embora a flagelação fosse realizada de várias maneiras, a vítima geralmente era despida e presa pelos pulsos a um objeto fixo, como uma coluna rebaixada, forçando-a ficar curvada, o que facilitava o trabalho do carrasco. Um ou mais soldados romanos eram escalados para iniciar o chicoteamento. O soldado ficava de pé ao lado do prisioneiro com o flagrum na mão e, ao receber a ordem, lançava o instrumento de couro para trás das costas, girava o pulso e golpeava as costas nuas do prisioneiro como se fosse um arco.

O peso do metal ou dos objetos feitos de osso nas pontas das tiras de couro atingiam as costas e os braços, os ombros e as pernas, incluindo as panturrilhas. Os pedaços de metal penetravam na carne, rasgando vasos sangüíneos, nervos, músculos e pele. A manobra era repetida ininterruptamente, com os soldados trocando de posição até atingir o número definido de chibatadas.[Dr.Pierre Barbet em sua obra - A paixão de Cristo segundo o cirurgião afirma que no caso do Homem do Sudário, um soldado era menor que o outro devido aos locais das marcas do flagrum]

Os efeitos físicos da flagelação

Você já recebeu um golpe na costela, como um soco ou uma bolada de beisebol? A dor é extremamente intensa e pode durar semanas. A respiração se torna superficial, já que uma inspiração profunda provoca dor. A isso se chama tensão nos músculos. Dormir passa a ser um problema, porque a única posição confortável é deitar-se de costas. Deitar-se do lado do ferimento é muito desconfortável, e, como a estrutura das costelas é interligada, deitar do lado oposto coloca tensão em todo o conjunto, ampliando o desconforto.

Imagine a intensidade da dor se você receber numerosos golpes violentos na costela com o flagrum, como foi descrito antes. Pacientes que se machucam no tórax ou sofrem certos tipos de cirurgia, como a do aparelho urinário, apresentam dificuldade para respirar e são periodicamente obrigados a usar um aparelho chamado espirômetro, para assegurar que os pulmões inflem totalmente e impedir que se contraia pneumonia.

Os efeitos da flagelação fazem o que foi relatado anteriormente parecer apenas uma simples surra. Depois do açoitamento, aparecem no corpo da vítima enormes feridas (com matizes de preto, azul e vermelho), lacerações, arranhões e inchaço, basicamente ao redor das perfurações feitas pelo peso dos objetos ou scorpiones. Sêneca fez referências às “horrendas contusões” nos ombros e no peito. Freqüentemente, as costelas eram perfuradas.[O que não aconteceu com Nosso Senhor, segundo o estudo dos especialistas]

As vítimas esperneavam, se contorciam em agonia, caindo de joelhos, mas eram forçadas a se levantar novamente, até não poder mais. A respiração do açoitado era severamente afetada, porque os golpes no peito causavam dores excruciantes toda vez que ele tentava recuperar o fôlego. Os músculos intercostais, entre as costas e os músculos do peito, apresentavam hemorragia, e os pulmões eram lacerados, freqüentemente colapsados – todos esses fatores impunham à vítima extrema dor quanto tentava respirar.

... O açoitamento com flagrum é ainda mais grave do que com um cinto e um fio de abajur, e resulta geralmente em fraturas nas costelas e ferimentos e lacerações nos pulmões, causando sangramento nas cavidades do peito e pneumotórax parcial ou total... Estudos recentes provaram que uma simples fratura nas costelas causaria a perda de 125 mililitros de sangue. Jorros de vômito, tremores, ataques e desmaios podiam ocorrer a intervalos variados e, às vezes, de firma simultânea, durante o procedimento.

A vítima guinchava a cada golpe, normalmente implorando por misericórdia. Períodos de intensa transpiração ocorriam intermitentemente. A vítima era reduzida a uma massa de carne, exaurida e destroçada, ansiando por água. A flagelação levou Jesus a um prematuro estado de choque. Nas horas seguintes, houve um vagoroso acúmulo de fluído (efusão pleural) ao redor de Seus pulmões, causando dificuldades na respiração. Pode ter havido laceração no fígado e no baço.



* [Clique na imagem ao lado e verifique que as marcas no Corpo Santo são compatíveis com a do flagrum de haltere]
Evidência de flagelação no Sudário

Uma análise do Sudário de Turim revela de forma contundente marcas de um objeto em forma de haltere, atingindo a parte dianteiras e traseira do tronco e chegando às panturrilhas, mas poupando a cabeça, o pescoço e os braços, o que é consistente com o tipo de flagrum usado. A relativa falta de marcas do açoite nos braços sustenta a teoria de que eles tenham sido levantados acima da cabeça. O número de marcas de açoite ultrapassa cem...pois o flagrum era formado de três tiras; assim, cada golpe causaria três marcas.

... As marcas em forma de haltere podem não ser evidências de machucados ou contusões, como pensam alguns, mas, sim, marcas de pequenas quebras na pele, resultando em “padrões de ferimentos” muito parecidos com os que vemos na patologia forense. Esses padrões em forma de haltere no Sudário são o resultado das impressões feitas pelo sangue presente nas quebras de pele causadas pelos objetos do flagrum.

Sumário da reconstituição forense

Depois da flagelação, a condição de Jesus era relativamente grave. Ele estava preste a sofrer um choque traumático em razão dos ferimentos causados pelas chibatadas – particularmente na caixa torácica e nos pulmões – e pelos maus tratos anteriores, na residência de Caifás. Além disso, um quadro de hipovolemia (baixo volume de sangue) se desenvolvia por causa da baixa efusão pleural, da hematidrose, das pequenas hemorragias resultantes da flagelação, do vômito e da extrema transpiração.

... Os primeiros estágios de hipovolemia (perda de líquido em circulação) e o choque hipovolêmico poderiam ter causado fraqueza, cor acinzentada e suor abundante. É importante notar que o brutal espancamento na caixa torácica poderia ter afetado os pulmões e ocasionado a concentração de fluido no local. O fluido, misturado ao sangue, deve ter aumentado algumas horas depois dos golpes no peito, dificultando a respiração e causando dor extrema. O termo pulmão molhado traumático refere-se a acúmulo de sangue, líquido e muco depois de um violento trauma no tórax.

(A crucificação de Jesus - Dr. Frederick T.Zugibe)

PS: As palavras em [ ] foram acrescentadas por mim e os grifos são meus.
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