quinta-feira, 1 de outubro de 2009

A devoção do "Sábado do Sacerdote"

A devoção do "Sábado do Sacerdote" hoje tão largamente conhecida e praticada em todo o mundo católico, nasceu, em 1934, do zelo apostólico dum piedoso sacerdote da Congregação do Divino Salvador.
Não é uma associação religiosa propriamente dita. Todos os fiéis podem praticá-la. Consiste em consagrar todo o dia do sábado que segue imediatamente à primeira sexta-feira do mês, à santificação do clero e dos candidatos ao sacerdócio.
Nessa pia intenção, oferecem ao Divino Salvador, pela mediação da Mãe de Deus, a Santa Missa, a sagrada comunhão e todos os atos meritórios desse dia (podendo servir para este fim o "Oferecimento" abaixo).


Os Santos Padres os Papas Pio XI e Pio XII*, abençoaram e recomendaram à piedade de todos os fiéis a feliz idéia do zeloso sacerdote salvatoriano, sendo secundados por numerosos Cardeais, Arcebispos e Bispos de todo o orbe católico.

Em nossa querida pátria onde é imensa e palpável a falta de padres, o "Sábado do Sacerdote" encontrou o mais franco apoio por parte das nossas Autoridades Eclesiásticas. Eminentes membros do nosso Episcopado abençoaram este piedoso exercício e, em cartas pastorais recomendaram-no à devoção de seus diocesanos.


Oração de Santa Terezinha do Menino Jesus pelos sacerdotes

Ó Jesus, Sumo e Eterno Sacerdote, conservai todos os vossos sacerdotes sob a proteção do vosso Coração amabilíssimo, onde nada de mal lhes possa suceder. Conservai ilibadas as suas mãos ungidas, que tocam todos os dias em vosso Corpo santíssimo. Conservai puros os seus lábios, tintos pelo vosso Sangue preciosíssimo. Conservai puros e desapegados dos bens da terra, os seus corações que foram selados com o caráter sublime do vosso glorioso Sacerdócio. Fazei-os crescer no amor e fidelidade para convosco e preservai-os do contágio do mundo. Dai-lhes também, juntamente com o poder que têm de transubstanciar o pão e vinho em vosso Corpo e Sangue, o poder de transformar o coração dos homens. Abençoai os seus trabalhos com copiosos frutos, e concedei-lhes um dia a coroa da vida eterna. Assim seja.

"Jesus, Salvador do mundo, santificai os vossos sacerdotes e levitas."
(300 dias de indulgência cada vez)
"Mandai, Senhor, à Vossa Igreja, sacerdotes santos e religiosos fervorosos."
 (300 dia de indulgência)

Indulgência do Sábado do Sacerdote

Indulgência plenária para cada "Sábado do Sacerdote", Quinta-Feira Santa, festa de Nossa Senhora, Rainha dos Apóstolos (primeiro sábado depois da Ascenção) e todas as festas dos Apóstolos, se na supracitada intenção se confessarem e comungarem, rezando na intenção do Santo Padre.
Indulgência parcial: de 7 anos para todos os dias do ano em que com o coração contrito praticarem esse piedoso exercício.
(dados acrescentados no dia 01/10 as 21:29 h)

Oferecimento

Divino Salvador, Jesus Cristo, que confiastes aos sacerdotes, como a vossos representantes, a obra da Redenção, a salvação e a felicidade dos homens, eu vos ofereço pelas mãos de nossa Mãe Santíssima, para a santificação dos sacerdotes e dos candidatos ao sacerdócio, inteiramente todas as orações, trabalhos, alegrias, sacrifícios e sofrimentos deste sábado.

Concedei-nos, Senhor, sacerdotes verdadeiramente santos, que abrasados pelo fogo do vosso amor divino, só procurem a vossa maior glória e a salvação de nossas almas. -E vós, ó Maria, boa Mãe dos sacerdotes, protegei a todos eles nos perigos e dificuldades de sua santa vocação. Guiai também, com vossa mão maternal, os pobres sacerdotes transviados, que se tornaram infiéis à sua sublime vocação, para que voltem, quanto antes, para junto do Bom Pastor. Amém.

Maria Santíssima, Rainha do Clero, Mãe de Jesus, Sumo Sacerdote, - intercedei pelos sacerdotes-  e pelos que se preparam para o sacerdócio, e despertai verdadeiras vocações sacerdotais entre a mocidade.

IMPRIMI POTEST: Rio de Janeiro, 15-VIII-1942
P. Vicente Hirschle - Sup. Prov. S.D.S.
IMPRIMATUR: S. Paulo, 17-VIII-1942
Mons. Antônio de Castro Mayer - Vig. Geral

*(Informações retiradas de um santinho que veio em um dos livros que eu comprei em um sebo, fiz uma pequena alteração pois na época que o santinho foi impresso o Papa reinante era Pio XII)


***


PADRE ANTÔNIO


Numa cidadezinha perdida e esquecida, lá nos confins deste tão imenso Brasil, existe uma igreja quase sem existir. Em torno, mil ou duas mil almas mais ou menos desalmadas; dentro, um velho vigário a fazer contas intermináveis, e um padre coadjutor, na sacristia, a olhar o morro, a linha férrea lá longe, o rio, talvez o céu.
Já traz cinzas na cabeça e uma curvatura nas costas, mas naquele momento o que mais lhe pesa é a solidão que cerca a velhice que se aproxima. Está ali. Não é nada. Não sente forças para fazer nada pela vila indiferente que quer viver sua vida rotineiramente encaminhada para a morte. Sente-se inútil a mais não poder. Quer que ele celebre a única missa da féria, e com uma só porta apenas entreaberta. Precaução aliás inútil porque ninguém mais aparece nas missas dos dias da semana. O povo não gostou quando o vigário tirou os santos que há mais de cem anos povoavam a velha igrejinha. Diminuiu a assistência à missa, diminuíram as confissões. A conversa com o vigário, na hora do jantar, reduz-se a monossílabos.

Padre Antônio torna a pensar nas coisas que se perderam: a água benta, a oração do terço à noite, os santinhos que dava aos moleques na rua com magnanimidade, e tudo o mais que fazia companhia, que cercava a alma da gente nas igrejinhas da roça. Por que esta devastação? O vigário não gosta de abordar o assunto. Sofre a seu modo, com a tenacidade obtusa dos animais feridos. Cerra os dentes. Não pensa. Não fala. Faz o que o bispo mandou fazer e encerra-se num mutismo quase vegetal. Às vezes parece ter gosto de transmitir seu sofrimento fazendo um outro sofrer. É seu modo de conversar, e quem paga é padre Antônio.

Um dia padre Antônio não encontrou sua velha batina e teve de pedir uma explicação a d. Ana e ao vigário. Explicaram-lhe que estava imprestável. Ganharia nova batina? Não. Clergy-man também é muito caro. Padre Antônio deveria comprar na loja do João Mansur umas calças de lonita e duas camisas esporte. E é com esta roupa pobre que padre Antônio agora se debruça na janela e consulta o infinito. Pobre, pobre padre Antônio. Ele nunca foi propriamente vaidoso e preocupado com a roupa que haveria de vestir, como aconselha Nosso Senhor.

Mas essa história da batina doía-lhe ainda como se estivesse em carne viva, como se 1he tivessem arrancado a pele. E o pior é pensar que é com esta roupa por baixo, esta roupa de rua, esta roupa sem bênçãos que deve celebrar a Santa Missa. Disseram-lhe que era mais prático usar uma só alva por cima do traje esporte. E esta alva não era mais daquelas antigas, rendadas e compridas. Padre Antônio não queria as rendas para si, já que era desgracioso e escuro: queria-as para enfeitar o louvor de Deus. Mesmo porque, descontada alguma andorinha, nenhum ser vivo aparecia para assistir ao Sacrifício de nosso Salvador. Nem valia a pena bater a campainha. As novas alvas não têm rendas. São ordinárias e curtas, sim, curtas, porque o importante é aparecerem as calças para todo o mundo ver que o padre é homem, como outro homem qualquer.

Está na hora de preparar a missa da tarde, e padre Antônio sente a tristeza aumentar. Está só. Está só. Não tem com quem falar. Poderá conversar na farmácia com a turma do gamão do Frederico, mas depois a volta para a casa é ainda mais pesada. Poderá perguntar a d. Emília se está melhor do reumatismo, e a d. Maria se o marido já voltou do Rio. Mas não tem ninguém com quem possa falar, com quem possa desabafar, a quem possa explicar a desmedida tristeza de vestir por cima das calças uma alva sem rendas, e a quem possa dizer a saudade que tem da batina preta, a batina bendita em que um dia amortalhara o homem velho para viver em Cristo Nosso Senhor. E não tem ninguém a quem possa perguntar tremendo: «O que é que está acontecendo em nossa Igreja? E o Papa?» Ou então alguém, um irmão, um padre, a quem possa dizer com medida indignação: «Não pode ser! Não pode ser! As portas do inferno não prevalecerão!»

Padre Antônio olhou mais uma vez para o horizonte que a noite já escondia. O mundo começava além daquela serra... O mundo! Padre Antonio curvou a cabeça como um condenado. Estava preso! Estava preso! Abriu então as duas mãos grandes e magras que considerou com triste ternura: um dia elas tinham recebido o poder de consagrar o Pão e o Vinho, e de trazer assim ao mundo, como a Virgem Santíssima, o Corpo de Deus. Mãos grandes, mãos nervosas e escuras, mãos consagradas. Ao menos esta pele não lhe arrancam, esta marca não lhe tiram.

Num desamparo infinito padre Antônio contemplava as duas mãos frementes, tão poderosas e tão inúteis. Turvava-se o espírito, vacilava a razão e a fé. Estão ali as mãos. E o resto. E a água benta? o Latim? as coisas da Igreja? As palmas inúteis não respondiam às suas indagações, e até pareciam pedir-lhe uma resolução, uma decisão, já que a mão foi feita mais para fazer do que para pensar... O que é isto? O que é isto nas palmas das mãos? Estará chovendo? Padre Antônio, padre Antônio, o senhor está chorando. Quem foi que falou? Ninguém. Ninguém. É o próprio padre Antônio que tomou o costume de falar com o padre Antônio.

Juntam-se as mãos. E das profundezas dos abismos que todos trazemos, mesmo debaixo de uma camisa esporte, subiu um clamor de aflição: «Usquequo exaltabitur inimicus meus super me? Respice et exaudi me! Respice et exaudi me! Respice et exaudi me, Domine Deus meus...».

E então, neste momento infinito, padre Antônio teve a incomparável certeza de que não estava só.

(Gustavo Corção - 15-2-69- retirado do site:  Permanência)
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